A vida no morro é dominada pelo tráfico. Os moradores da comunidade vivem diariamente sob o jugo de uma lei ditatorial, instantânea e mortal, instituída e executada por bandidos que se esqueceram um dia terem sido filhos de uma mãe. Dominados pela violência do seu dia-a-dia, dopados pelo sangue e pela química, vivem seu terror de vida sem objetivo a não ser o poder, o prestígio e a adrenalina eletrificante. Os chefes do tráfico, reis do dinheiro e mestres da manipulação de mentes, vivendo em seus palácios high-techs, oásis em meio à pobreza e à precariedade, jogando com seus dados da morte e assim como seus arautos, vivendo no fio da navalha, mexendo-se com esmero para evitar o corte, doloroso e profundo, mas nunca temendo a dor ou a morte, as únicas e fiéis companheiras nesse curto, intenso e selvagem caminho.
Em meio a esse inferno, a comunidade. Incubadora dos fora-da-lei. Um monte de gente trabalhadora e pobre, que pega vários ônibus para limpar casas, fazer comida e tomar conta de crianças na zona sul. Trabalhar no paraíso, morar no inferno. Parece até uma piada de mau gosto, mas é uma vida aceitável. Pelo menos se está vivo e pode-se criar os filhos sem ter que morar na rua e pedir esmolas em praças e igrejas. O perigo existe mas é melhor que se pode fazer.
A vida na cidade assim exige. Oportunidades e diversidade não significam moleza ou mar de rosas. As cidades cresceram, se expandiram, se tornaram mini-cosmos de cultura, arte e etnia. É impressionante o que existe em uma cidade grande como o Rio de Janeiro... simplesmente tudo. Desde a mais pura e inocente beleza, ao mais cruel e danoso pecado. Viver num pântano como esse exige coragem.
Eu vivo nessa cidade maravilhosa, purgatório da beleza e do caos. Ela é uma explosão de informação da qual não quero fugir. Eu amo muito tudo isso. Amo acordar e ver essas dezenas de prédios enfileirados lado-a-lado com seus famosos 12 andares e saber que em cada uma daquelas janelas existe uma história completamente diferente, um livro de milhares de páginas para cada janela daquela paisagem mais que surreal... onde tudo chegou e até onde iremos. A grande cidade. O Rio de Janeiro.
A favela sempre me chamou a atenção. Sempre tive uma curiosidade absurda de conhecer seus praticantes, de perambular pelas estreitas vielas e ver do que realmente se trata. Sempre quis morar na favela. Não como um sobrevivente mas como um estudioso ou simplesmente um curioso. Ver se o samba nasce do pé ou da cabeça. Conhecer os malandros e as donas de casa. Ser como uma câmera captando cada aspecto singular e nuance deste quadro complexo e belo, a meu ver. Uma mistura de vida, florescendo, murchando, sangrando, endurecendo, amadurecendo e brilhando. Podem dizer, “vá morar lá então, o que está esperando?!?” mas eu também não sei o que estou esperando... talvez deixar a faculdade acabar.
Não importa. Tive uma grande idéia. Um filme. Um filme sobre a favela. Apenas um lado da moeda. Um filme bem superficial mas bem bacana, com personagens esdrúxulos, ação, pancadaria geral com uma pitada de filme de kung-fu chinês, estilo Quentin Tarantino, mas um pouco mais carnavalesco, tipo um Brasilzão louco. “hehehe”. É, tipo assim. Talvez eu chame ele para dirigir. Eu chamar?!? Quem sou eu?!? Quero dizer, enviar a história para ele ver o que achou e depois disso, produzir e dirigir... tá, assim tá melhor.