segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A Revolta do Morro - Introdução

A vida no morro é dominada pelo tráfico. Os moradores da comunidade vivem diariamente sob o jugo de uma lei ditatorial, instantânea e mortal, instituída e executada por bandidos que se esqueceram um dia terem sido filhos de uma mãe. Dominados pela violência do seu dia-a-dia, dopados pelo sangue e pela química, vivem seu terror de vida sem objetivo a não ser o poder, o prestígio e a adrenalina eletrificante. Os chefes do tráfico, reis do dinheiro e mestres da manipulação de mentes, vivendo em seus palácios high-techs, oásis em meio à pobreza e à precariedade, jogando com seus dados da morte e assim como seus arautos, vivendo no fio da navalha, mexendo-se com esmero para evitar o corte, doloroso e profundo, mas nunca temendo a dor ou a morte, as únicas e fiéis companheiras nesse curto, intenso e selvagem caminho.

Em meio a esse inferno, a comunidade. Incubadora dos fora-da-lei. Um monte de gente trabalhadora e pobre, que pega vários ônibus para limpar casas, fazer comida e tomar conta de crianças na zona sul. Trabalhar no paraíso, morar no inferno. Parece até uma piada de mau gosto, mas é uma vida aceitável. Pelo menos se está vivo e pode-se criar os filhos sem ter que morar na rua e pedir esmolas em praças e igrejas. O perigo existe mas é melhor que se pode fazer.

A vida na cidade assim exige. Oportunidades e diversidade não significam moleza ou mar de rosas. As cidades cresceram, se expandiram, se tornaram mini-cosmos de cultura, arte e etnia. É impressionante o que existe em uma cidade grande como o Rio de Janeiro... simplesmente tudo. Desde a mais pura e inocente beleza, ao mais cruel e danoso pecado. Viver num pântano como esse exige coragem.

Eu vivo nessa cidade maravilhosa, purgatório da beleza e do caos. Ela é uma explosão de informação da qual não quero fugir. Eu amo muito tudo isso. Amo acordar e ver essas dezenas de prédios enfileirados lado-a-lado com seus famosos 12 andares e saber que em cada uma daquelas janelas existe uma história completamente diferente, um livro de milhares de páginas para cada janela daquela paisagem mais que surreal... onde tudo chegou e até onde iremos. A grande cidade. O Rio de Janeiro.

A favela sempre me chamou a atenção. Sempre tive uma curiosidade absurda de conhecer seus praticantes, de perambular pelas estreitas vielas e ver do que realmente se trata. Sempre quis morar na favela. Não como um sobrevivente mas como um estudioso ou simplesmente um curioso. Ver se o samba nasce do pé ou da cabeça. Conhecer os malandros e as donas de casa. Ser como uma câmera captando cada aspecto singular e nuance deste quadro complexo e belo, a meu ver. Uma mistura de vida, florescendo, murchando, sangrando, endurecendo, amadurecendo e brilhando. Podem dizer, “vá morar lá então, o que está esperando?!?” mas eu também não sei o que estou esperando... talvez deixar a faculdade acabar.

Não importa. Tive uma grande idéia. Um filme. Um filme sobre a favela. Apenas um lado da moeda. Um filme bem superficial mas bem bacana, com personagens esdrúxulos, ação, pancadaria geral com uma pitada de filme de kung-fu chinês, estilo Quentin Tarantino, mas um pouco mais carnavalesco, tipo um Brasilzão louco. “hehehe”. É, tipo assim. Talvez eu chame ele para dirigir. Eu chamar?!? Quem sou eu?!? Quero dizer, enviar a história para ele ver o que achou e depois disso, produzir e dirigir... tá, assim tá melhor.

Unknown Soldier II

Demos a gerra
ao soldado desconhecido
Pela nação ele morre
sem maiores explicações

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
O cidadão tem seus direitos
e seus DEVERES!

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Ele é só
mais um número estatístico

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
O mais perto da morte que chegaremos
é jogando batalha naval

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Pouco mais que sua família
vai sentir a sua falta

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Como é bom morrer
em solo estrangeiro

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Eu luto
pela conservação da liberdade

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Meu pai fica orgulhoso de mim
enquanto eu morro

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Para o café temos
lavagem cerebral

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Luto
logo existo

Demos a guerra
ao soldado desconhecido
Ele representa
os ideais de uma nação.

A terra sem tempo

Existiu, existe e existirá, uma terra sem tempo, onde se contam os sóis e as luas, mas não mais que 30 vezes. Seu nome é terra sem tempo porque essa é a principal diferença com a nossa terra, onde o tempo é muito importante.
O mais engraçado é que nela, a tecnologia é antiga em comparação a nossa. Já existem sabres de luz, mas a maioria prefere mesmo o arco e flecha.
É impressionante como tudo é feito com o maior prazer. E tudo bem demorado de preferência. Todos são sossegados e parecem muito satisfeitos.
Mas não é assim tudo moleza. Eles tem que terminar suas tarefas para não acumular e terem de trabalhar em dobro.
Lá, eles fazem apenas 1 refeição por dia (1 dia = 1 sol) bem demorada. Mas também não comem muito não... o mesmo que costumamos comer quando vamos a um self-service.
Só se usa transporte quando está doente, porque tudo é feito a pé, não importa a urgência. Nas orações eles costumam agradecer muito pelos pés, tem uns que até fazem uma cerimônia para ele.
Outra coisa tão intrigante quanto a ausência de tempo, é a duração da vida. Não se sabe quanto tempo se vive lá... mas cada momento é eterno. De vez em quando dão falta de alguém, e daí sabe-se que esse se foi. Mas de alguma maneira meio que mágica, estando lá, você se sente imortal. Você sabe que vai morrer, mas não se importa com isso. Você fecha os olhos e deixa a água do mar, agradavelmente entrar pela sua roupa. Você deita na grama e nem se importa que as formigas andem em você. Se joga no barro e depois deita no sol pra secar. Realmente não importa o que faça, a felicidade parece não ter fim.

A incerteza

Por muito tempo
eu olhava em todas as direções, parado.
Olhava para o chão, e tinha certeza do próximo passo que ia dar.
Se visse um buraco, não tinha problema, eu já tinha-o visto. Tinha certeza de onde estava pisando.

Poucas vezes saí de minha terra. Antes estudava bem o percurso, e depois de ter todas as informações que precisava, eu não ia. Se fosse, ia com passo exitante como se no próximo instante, o chão ruiria a minha frente.
O sol poderia estar brilhante, a vida urrante, mas no fundo eu esperava chuva... sempre.

Se viesse uma manada de cavalos selvagens
eu olhava de cima de uma colina
ou de baixo de uma pedra
esperava eles passarem,
depois que aquelas belas e decididas criaturas passassem em sua louca disparada
seguia o meu caminho, certo de que nada aconteceria, realmente nada. Nada de bom, nem de ruim.
Via aqueles cavalos com admiração e me identificava com eles, e sua liberdade.
Deveria ser muito bom correr... correr, livre!

Mas como?!? Correr?!?! Para que direção? No meio de tantos, tão fortes... poderia me machucar.

E a vida seguia assim... sem maiores riscos.

Mas o desejo... o desejo simplesmente não desaparece, por mais que você tente escondê-lo, assassiná-lo... grande tolice, ele é imortal. E o desejo me fez correr... com os cavalos. Mais do que isso... me mostrou que realmente eles corriam sem direção, nenhum deles sabia realmente o que estava fazendo... e eu sim.

Mas as criaturas que por tanto tempo amei, admirei... como... eu não poderia.

Correr me ensinou. Em nenhum instante eu corri junto deles, mas os acompanhava como uma águia a filmar todo aquele espetáculo, de uma vista privilegiada.

Hoje ando. Não corro porque não sou cavalo. Mas os meus pés se movem, meus olhos viajam pela paisagem. Meu desejo é o meu guia. A incerteza é minha companheira de viajem. A única certeza que tenho, é a de que posso: correr, voar nadar. Eu sou como um grande Deus egípcio, persa, com cabeça de leão, corpo de gazela, patas de urso e asas de gaivota. Sou todos em um, tudo em um ponto específico. Todos os lugares, todas as pessoas.

O que lhe digo é o seguinte: quando for viajar, não esqueça de convidar a incerteza, ela lhe proporcionará bons e inesquecíveis momentos de felicidade e satisfação. Tenha um mapa, mas não deixe de seguir o doce aroma das flores por causa dele. O mapa está ali e se por algum motivo, você sair do caminho, ele lhe ajudará a voltar. Quem sabe qual o melhor percurso a tomar, se não tomar. Quem melhor para conhecer o caminho que o próprio viajante...


Bons companheiros de viajem:
Desejo - ótimo guia.
Bom senso - evita que você se perca nos becos escuros. Mas cuidado para que ele não se transforme em um senhor autoritário e a viajem será inútil. Melhor ter ficado em casa.
Sabedoria - melhor que o bom senso, porque é de um nível superior.
Incerteza - garante que a vida realmente vale a pena, e que realmente tudo pode ser uma emocionante aventura.