segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A incerteza

Por muito tempo
eu olhava em todas as direções, parado.
Olhava para o chão, e tinha certeza do próximo passo que ia dar.
Se visse um buraco, não tinha problema, eu já tinha-o visto. Tinha certeza de onde estava pisando.

Poucas vezes saí de minha terra. Antes estudava bem o percurso, e depois de ter todas as informações que precisava, eu não ia. Se fosse, ia com passo exitante como se no próximo instante, o chão ruiria a minha frente.
O sol poderia estar brilhante, a vida urrante, mas no fundo eu esperava chuva... sempre.

Se viesse uma manada de cavalos selvagens
eu olhava de cima de uma colina
ou de baixo de uma pedra
esperava eles passarem,
depois que aquelas belas e decididas criaturas passassem em sua louca disparada
seguia o meu caminho, certo de que nada aconteceria, realmente nada. Nada de bom, nem de ruim.
Via aqueles cavalos com admiração e me identificava com eles, e sua liberdade.
Deveria ser muito bom correr... correr, livre!

Mas como?!? Correr?!?! Para que direção? No meio de tantos, tão fortes... poderia me machucar.

E a vida seguia assim... sem maiores riscos.

Mas o desejo... o desejo simplesmente não desaparece, por mais que você tente escondê-lo, assassiná-lo... grande tolice, ele é imortal. E o desejo me fez correr... com os cavalos. Mais do que isso... me mostrou que realmente eles corriam sem direção, nenhum deles sabia realmente o que estava fazendo... e eu sim.

Mas as criaturas que por tanto tempo amei, admirei... como... eu não poderia.

Correr me ensinou. Em nenhum instante eu corri junto deles, mas os acompanhava como uma águia a filmar todo aquele espetáculo, de uma vista privilegiada.

Hoje ando. Não corro porque não sou cavalo. Mas os meus pés se movem, meus olhos viajam pela paisagem. Meu desejo é o meu guia. A incerteza é minha companheira de viajem. A única certeza que tenho, é a de que posso: correr, voar nadar. Eu sou como um grande Deus egípcio, persa, com cabeça de leão, corpo de gazela, patas de urso e asas de gaivota. Sou todos em um, tudo em um ponto específico. Todos os lugares, todas as pessoas.

O que lhe digo é o seguinte: quando for viajar, não esqueça de convidar a incerteza, ela lhe proporcionará bons e inesquecíveis momentos de felicidade e satisfação. Tenha um mapa, mas não deixe de seguir o doce aroma das flores por causa dele. O mapa está ali e se por algum motivo, você sair do caminho, ele lhe ajudará a voltar. Quem sabe qual o melhor percurso a tomar, se não tomar. Quem melhor para conhecer o caminho que o próprio viajante...


Bons companheiros de viajem:
Desejo - ótimo guia.
Bom senso - evita que você se perca nos becos escuros. Mas cuidado para que ele não se transforme em um senhor autoritário e a viajem será inútil. Melhor ter ficado em casa.
Sabedoria - melhor que o bom senso, porque é de um nível superior.
Incerteza - garante que a vida realmente vale a pena, e que realmente tudo pode ser uma emocionante aventura.

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